Tela inacabada
Queria o verão manso e praiado
de céu aberto e estrela cadente
queria o Outono de folha pisado
que empurra o mais indolente
Queria o Inverno frio e tiritado
de nuvem veloz e céu plangente
queria a Primavera de ar folgado
pedra redonda e vida nascente
Mas o Verão também desfaz amores
e o Outono tem verão de castanha acesa
o Inverno também se abre às flores
Quando a Primavera chora a tristeza...
Se pintasse todas as suas cores
a tela movia-se de tanta Natureza
Cem palavras...
Palavras perfeitas...

Foto de Mitsuo Suzuki
Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela. e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.
José Luis Peixoto
Sereia imaginada...
Copyright Laura De la Serna © La aguaNa praia jaz uma sereia
parece feita de pedra
antes seja construção na areia
Tão bela se sugeria
gostaria que fosse verdadeira
tanto das lendas me desiludia
Cabelos de algas emaranhados pelo vento
tombada de bruços pela onda
dormia sem outro movimento
Em posição de náufrago, perdida
seus contornos delineados
parecia darem-lhe vida
Os raios de sol tardios
aqueciam as escamas molhadas
e das mãos os dedos esguios
Tem séculos em cada grão de areia
que a prendem ao mar
mas hoje fugiu dessa cadeia
Vai desaparecer na volta do mar
felizmente é de areia
para regressar ao seu lar
Não quero ver seu corpo desmanchado
na memória levo uma sereia
neste momento mais belo que o imaginado.
Vida desarrumada

Eu que tenho a vida desarrumada
a cama por fazer
tenho tão pouco por dizer,
quase nada
Entre devaneios de coisas de nada
o pó por limpar
entre passos para
lá e para cá
a roupa por lavar
entre monotonias de hoje e de ontem
a loiça por lavar
entre o fazer e o desfazer
o livro por ler
Tenho só as palavras que
escrevo
e não dão corpo ao que penso
tenho só esta maneira de fazer poesia
quase a falar
um dia, tenho que arrumar a casa!
Invasões bárbaras
LÍNGUA PORTUGUESAO idioma em que eu escrevo é quase língua morta.
Não durará por muito tempo, eu sei;
Sei – como um pai a quem desenganaram
E que, sereno de resignação,
Ergue ainda nos braços
O filho estremecido,
Ameaçado de todos os contágios,
Fustigado de todos os flagelos;
Um pai que sente a dor
Não já somente de o perder,
Mas a outra, maior:
Sobreviver!
João Cabral do Nascimento, Digressões, 1953
Monólogos
Da música
Da música faço imagem
da imagem faço história
da história faço filme
E tudo volve dentro de mim
O filme retoma a música
a música retoma a história
a história retoma a imagem
E tudo revolve dentro de mim